Ele me roubara mais um beijo. Dessa vez tudo aconteceu diferente do normal. Eu estava andando rumo minha casa, e nos esbarramos pelo caminho. Esses encontros sempre foram comuns, por morarmos quase na mesma rua. Ele me viu, veio, e me seguiu. Conversou comigo o tempo todo. Contou sobre o sonho que teve na noite passada, sobre o que acontecia na sua escola, sobre seus amigos e até sobre seu cachorro. Eu o ignorei o tempo inteiro… Sempre achei sua presença tão… Marcante. E eu odeio qualquer pessoa que deixe alguma marca, seja ela boa ou ruim. Percebi que ele desanimava um pouco por causa do meu nítido desinteresse, mas logo enchia-se de animação, e continuava a me seguir.
Atravessamos a rua e seguimos para a calçada da minha casa. Faltavam alguns poucos passos até o meu portão, o que nos dava no máximo 5 minutos de conversa. Me distraí observando as flores da calçada que passávamos, sempre achei lindo o jeito que o os galhos se entrelaçavam formando um teto sobre a calçada. Percebi algo estranho, e vi que ele havia parado de falar já tinha um tempo. Parecia concentrado enquanto olhava para o chão e andava lentamente ao meu lado.
Acelerei e me posicionei na sua frente, interrompendo o seu caminho. Coloquei minha mão sobre seu peito e empurrei de leve, fazendo com que ele desse meio passo para trás. Soltei um “Tá pensando em quê?” enquanto andava para trás e me virava aos poucos. Ele sorriu e acelerou o andar, me segurando firmemente antes que eu pudesse virar meu corpo e continuar a caminhada. “Nisso”, foi o que ele respondeu antes de selar um beijo em minha boca. Soltei um suspiro assim que ele me soltou, e disse olhando tristemente para ele: “Você tem que parar com essa mania.” E foi aí que aconteceu o que eu não esperava. Ele gargalhou, passou a mão pelos cabelos e pareceu inquieto. Chegou perto de mim e retirou as pequenas pétalas de flores que haviam caído em meu cabelo, aproveitando para coloca-lo atrás da minha orelha. Olhou nos meus olhos e pela primeira vez eu deixei de vê-lo como o menino agitado que fala muito. Ele parecia sereno, e calmo. E então, ele me disse docemente: “Não é mania. É amor.” E beijou-me, mais uma vez.
(Source: ultrajes)

